domingo, 9 de março de 2008

Jabuticabas


Acampamento Rio Selvagem -
by Kleber ATM - 10/2007

Hoje, assim que fui verificar minha caixa de correio, tive a grata surpresa de receber um texto de minha irmã, que me fez voltar no tempo.
Quando era pequena, passava algumas férias na fazenda de meu tio-avô em Jaú. Fazenda Santo Antonio.
Uma das minhas maiores lembranças é de comer as frutas direto do pé. Algumas frutas você pode comprar no supermercado, feira ou sacolão, trazer para casa e comer a vontade que não sente a diferença, mas jabuticaba não.
Não existe, para mim, melhor maneira de comer jabuticaba do que direto no pé, em cima da árvore, tentando alcançar as maiores e mais maduras. Sentir o gostinho doce de cada frutinha, e comer até ficar empanturrada e mesmo assim só parar quando não tem mais para comer.
No ano que passou, acompanhei as crianças da escola ao acampamento Rio Selvagem, onde tem vários pés de jabuticaba. Não resisti a tentação e fui parar lá em cima em busca das frutinhas mais saborosas. O pessoal do acampamento até me presenteou com um saco cheio dessas frutinhas maravilhosas para que as comesse com calma e "bem acomodada" na minha casa. Claro que não teve o mesmo sabor, mas valeu a intenção deles. Ainda bem que mais uma vez na minha vida, pude me empanturrar de jabuticaba.

Agora o texto....que fala de jabuticabas, valores e tempo.....



Sobre Tempo e Jabuticabas
Ricardo Gondim

"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos a limpo". Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo."

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